SOBREVIVI- FERNANDA BRUM

5.5.10

Sobrevivi. Nesses dias bateu à porta do meu coração uma necessidade avassaladorade cumprir o chamado para o qual definitivamente eu nasci. Todamaturidade é bem vinda principalmente a que parece me chegar aos 33anos. Meu chamado para a Capelania da Misericórdia e da Justiça tem meconsumido. A dificuldade em mobilizar de maneira útil o braço daIgreja em favor dos menos favorecidos, me consome.Tenho conseguidoessa adesão aos poucos como em um trabalho de conta-gotasinterminável. Eu sigo com meu coração pegando fogo desde PortasAbertas e A Igreja Perseguida, essa que jamais abandonarei e pela qualcontinuarei gastando a minha voz para gritar: “Orem! Socorram a IgrejaPerseguida!!! Fui ignorada e engavetada nesse discurso, até que os jovens começarama dançar minhas canções na Igreja e a mostrar aos lideres queentendiam de intercessão e missiologia muito mais que os Teólogosengravatados. O povo veio, gritou: “Eu Vou!” Lotou o Mauá de SãoGonçalo. Sessenta mil pessoas vieram e gravaram o Profetizando asNações. DVD tachado de chato e longo para os desligados do mundoespiritual, assim como o CD, que foi incompreendido e taxado de semexpressão de vendas, até que conquistou seu platina duplo ecredibilidade junto aos órgãos missionários. A massa veio, gravou, cantou, e hoje, muitos dos que estavam nagravação, estão debaixo de escombros da lama e das avalanches debarro, água, lixo e descaso público. Meus guerreiros de São Gonçaloforam soterrados. Meus amigos que gritaram alto comigo para o planetaouvir, foram dizimados. Estão sem casa, sem amor, sem ajuda. Muitosguerreiros e mártires se organizaram abrindo as portas das Igrejaspróximas ao morro do Bumba. Só restou a Igreja. O Estado não acomodaninguém em lugar nenhum. Soube da história do Pr. Bruno que desde odia 5 de Abril está sem voltar em casa cuidando de gente, amando osque choram… Como ele, muitos estão amando… apenas amando… porque éTUDO o que eles tem para dar. Eu sobrevivo ao Rio de Janeiro, aos ataques e aos atentados que jásofri. Aos tiros que levei na Av. Automóvel Clube, via conhecida comoperigosíssima no Rio de Janeiro. Eu era pastora no bairro de Vicente de Carvalho perto do Morro doJuramento e voltava para casa quando coloquei a mão no teto do carro edisse: “Mil cairão ao meu lado, dez mil à minha direita, mas eu nãoserei atingida.” Fizemos a curva para o bairro de Inhaúma e trêsrapazes invadiam a pista e pulavam para calçada com se brincassem deatravessar a rua. Na nossa vez, um deles também pulou, eu achei queera brincadeira. Esse mesmo, puxou uma pistola ponto 40 e disparou 4tiros em nosso pára-brisa. Isaac tinha 9 meses e estava na cadeirinhaatrás com a Mema (babá). Emerson tentou desviar e eu vi quando asbalas eram cuspidas da pistola e sumiam incandescentes diante dos meuolhos como se apagassem chegando ao vidro da frente. Batemos na muretada linha do metrô e, como por reflexo, Emerson lançou o carro em cimado bandido. Ele correu para a calçada e continuou atirando. O cheirode pólvora era forte dentro do carro e uma fumaça nos inebriou.“Estamos mortos”! Pensei. O bandido continuava atirando e dessa veznos carros de traz. Matou o motorista da Kombi que vinha a seguir,atirou em um Honda Civic, em outra família. Eu gritei: “Ele não quer ocarro! Emerson, corre!!! ” O Emerson saiu em alta velocidade enquanto olhávamos se estávamossangrando. Chegamos a uma patrulha na linha amarela e relatamos oacontecido. O policial estava sozinho e chamou outros pelo rádio.Heroicamente saiu ao encontro dos três que atiravam sem parar em quempassasse . Eles tinham ordem do comando para barbarizar os civis, poisum deles havia sido morto por policiais no dia anterior (viu ? elespressionam o Estado, não que eu concorde, longe de mim!). Seguimos para casa em choque. Eu pensava: “É assim que se morre.Devemos estar estirados no chão mas em nossas mentes achamos queestamos vivos. Onde estarão os anjos?” Seguimos para o condomínio ondemorávamos. Saímos do carro e procurávamos os buracos de bala.Tiramosas roupas e fraldas do bebê Isaac de 9 meses. O viramos de cabeça parabaixo. Olhamos uns aos outros milimétricamente à procura de furos debala. Estávamos livres. Procuramos no carro os furos, não havianenhum. Enfim eu disse: “Sobrevivi…” Não era a primeira experiência.Vou contar outras a vocês, como a dequando chegávamos em casa na Penha e fomos rendidos por 4 homens commetralhadoras e pistolas. Metralhadoras das chamadas Macaquinhas,pequenas e fáceis de levar em carro de passeio. Passaram a pistola pela cara do Emerson, desceram por todo o corpodele, passavam o cano da pistola nele para revistá-lo e levarem nossocarro. Levaram tudo. Depois devolveram. Conversei muito ao telefonecom eles, preguei para todos. Descobri que eram desviados. Tenho inúmeras experiências de sobrevivência no Rio, em Belém, emvários lugares. Mas tenho também em minha Igreja e em meu Estadofamílias enlutadas.Casos de homens de Deus e jovens santos, cheios deDeus que foram executados.Ou soterrados. Além da violência, e a falta de vontade política, somos conformadosdizendo: “O Mundo jaz no maligno!! Aleluia!! Temos que morrer mesmoassim, soterrados, assassinados, torturados porque Jesus vai voltar….”Que mente derradeira a da Igreja que assim pensa. O Espírito Santo está sobre a Terra e habita a Igreja!!! O mesmo mundoque jaz no maligno tem tachas de homicídios bem menores na França ouna Bélgica, onde o povo vai pra rua e grita!!! Ou será que nós crentesestamos tão misturados com a inércia e a ignorância que não temos oque pensar ? O que dizer? Ou não podemos protestar porque na ultimaeleição recebemos dentaduras ou recursos para trazermos nossoscantores evangélicos em nossas Igrejas? Ou será que isso não é problema nosso se as crianças de nossacomunidade estão fazendo fila para entrar para o trafico, enquanto nãotemos trabalhos sociais? “Ah! é verdade…deixemos isso para o AfroReague, que aliás, pode nos dar aulas de cidadania.” Será que vamos seguir votando sistematicamente em candidatosevangélicos sem cobrá-los de suas responsabilidades? Sem pesquisarmosno Google quantos processos ou quantas leis eles aprovaram e fizeramvaler? Eu estou exausta de fazer campanhas e depois delas ser ignorada emuitas vezes nem atendida pelos nossos “santos evangélicos” elegíveis.São poucos os parceiros que eu tenho e não preciso citá-los porque osque fazem valer o cargo que ocupam, vocês já conhecem e não precisamse defender. Suas obras falam por si. E quanto a nós? O grupo Rebanhão cantava “Quantos Chico Mendes aindavão morrer?” Essa nossa geração perguntaria: “ Quem foi Chico Mendes?” Nossos Lideres fazem pressão politica para que a placa que indica comochegar na igreja seja colocada na rua apontando a direção, ou para queum monumento à Bíblia seja erguido na praça da cidade. NINGUEM LEMBRADOS ÓRFÃOS!!! As viúvas apodrecem nos barracos, com fome, ou morandonum puxadinho de favor.Será que os nossos representantes vão seguirfirmes? Ou vão sumir das Igrejas por mais 4 anos? Por nossa vez temos que deixar de desrespeitar os eleitos, vaiá-los ouridicularizá-los. Não é essa a educação que Cristo nos sugere. Antes,ao invés de vaiá-los ou xingá-los, deveríamos responder nas urnas. Pense! Ouça o Espírito Santo, estude, preste à atenção, não se deixemanobrar. Não seja ingênuo.Vote, grite! Acorde! Seja! Reclame! Não seconforme! Precisamos de respostas para os nossos irmãos vitimas daschuvas: Quando? Como? Vamos fazer como o bom samaritano que enfiou a mão no bolso. Eu estoudisposta. E você? Se o Estado quiser, fará. Mas precisa ser antes daCopa, porque se esperarmos a Copa, tudo virará grama, cerveja eMadona. E a bola? A bola será a cabeça das crianças do morro do Bumbanos pés do Estado.

Com Temor em Cristo Fernanda Brum

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